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por Tiago Forte

Nos últimos dois anos eu li 100 romances de ficção científica, em média, um por semana. Veja a lista completa, com meus favoritos em destaque, aqui.

Comecei a ler ficção científica para passar o tempo. Tenho boas recordações de ler Jurassic Park quando criança. Continuei lendo porque compreendi que me ajudou a crescer: desenvolvi uma imaginação mais detalhada e um desrespeito pelo concebível.

Percebi que tinha ideias diferentes, ideias que você não consegue alcançar se lê os mesmos artigos da TechCrunch, posts do Medium e resenhas do Hacker News, como todas as outras pessoas do Vale do Silício. No meu negócio preciso vender ideias e, nestes livros, encontrei um tesouro precioso e uma caixa de ferramentas.

Segundo o futurista Jason Silva, “A imaginação nos permite ver futuras possibilidades encantadoras, escolher a melhor de todas e dar um empurrão no presente para encontrá-la.” Eu acredito que esses livros me ajudaram tanto com a visão quanto com o empurrão.

Todas as boas histórias de ficção científica têm como essência o exercício intelectual e eu gostaria de colocar o meu exercício em perspectiva:

E se esses livros representassem um bom palpite sobre como será o futuro?

Não é tão improvável assim. O que me deixa embasbacado ao ler os clássicos de Júlio Verne e H.G. Wells não é quantas previsões eles erraram, mas quantas eles acertaram. Fiz uma seleção me baseando principalmente nesta lista, um top100 dos melhores livros de ficção científica de todos os tempos. Isso quer dizer que esses livros representam quais são consideradas as melhores (ou pelo menos mais interessantes) ideias por aí.

  1. Para salvar a humanidade, nós precisamos perde-la

Todos nós sabemos que a sobrevivência a longo-prazo da nossa espécie depende da colonização de outros planetas e, eventualmente, de outros sistemas solares. A pergunta não é se o nosso planeta se tornará um ambiente impróprio para a vida, e sim quando.

Mesmo levando em consideração a distância e o tempo cronológico envolvidos, fica claro que assim que iniciarmos esse processo, começaremos a nos afastar.

Primeiro afetará a língua e a cultura. Colônias em outros planetas, separados por milhões de milhas de distância e horas de transmissão, começarão a desenvolver seus próprios dialetos, suas próprias gírias, músicas e tendências. Se observarmos somente a variação da língua inglesa, entre o escocês interiorano e o surfista californiano, o africânder sul-africano e o crioulo caribenho, já conseguimos enxergar um panorama dos caminhos da cultura.

As próximas mudanças serão políticas e econômicas. Assim como a identidade cultural americana reforçou e foi reforçada pela Guerra da Independência dos EUA, as colônias irão se perceber como diferentes, porque elas serão diferentes, e demandarão um governo que representa seus interesses. Com grandes distâncias envolvidas, provavelmente conseguiremos abafar as primeiras rebeliões, mas será só uma questão de tempo para se libertarem.

A integração econômica irá expandir bem mais lentamente do que a nossa velocidade de colonização e exploração. Quando chegar a hora de inteirar integralmente as colônias na nossa economia, elas já terão sistemas econômicos autossuficientes.

Finalmente, nós iremos presenciar mudanças genéticas. É incrível pensar que, mesmo com uma enorme diversidade aqui na Terra, todos nós somos da mesma espécie, o que significa que qualquer indivíduo poderia se reproduzir com qualquer outro indivíduo do sexo oposto, mesmo se voltarmos 160.000 anos atrás.

Mas isso é só um acidente histórico. Por muito tempo da pré-história, algumas poucas espécies de hominídeos andavam por esse planeta e o que nos uniu foram as necessidades emergenciais constantes e a expansão do homo sapiens sapiens ao partir da África.

No momento que alguns de nós deixarmos o planeta, nosso DNA começará a mudar novamente. Primeiro em uma parte do material genético que, ao ser submetido a diferentes pressões, diferentes causas de mortalidade, diferentes níveis de radiação e mutação, conduzirá os colonos a um novo trajeto evolutivo.

Eventualmente, mesmo que demore centenas ou milhares de anos, uma mutação fatal em uma colônia distante impedirá a reprodução, extinguindo aquela ramificação para sempre.

Para salvar a humanidade nós precisamos colonizar as estrelas, mas ao fazer isso perderemos a definição unificada de humanidade como a conhecemos.

  1. O tempo será nosso pior inimigo

Enquanto conquistamos as três dimensões do espaço, a quarta dimensão do tempo cada vez mais se tornará o maior desafio que já enfrentamos.

Em primeiro lugar por causa da dilatação do tempo, uma consequência da relatividade já comprovada. Esse conceito foi explorado mais recentemente no filme Interstellar, mas também é base de várias outras dúzias de histórias da ficção científica há muitas décadas. A dilatação do tempo é o fenômeno da passagem de tempo em velocidades diferentes, dependendo do quão rápido você se move; significa que se uma pessoa viaja a uma fração significante da velocidade da luz, ela irá envelhecer mais devagar do que alguém que está na Terra.

As consequências desse fenômeno nos seres-humanos são surpreendentes. Viajantes espaciais de longas distâncias retornarão ao seu planeta natal para encontrar todas as pessoas que conhece mortas e enterradas. Famílias serão estendidas pelos séculos, e alguns irão viver junto com seus tataranetos. Personalidades históricas irão emergir de capsulas espaciais ainda em sua juventude. Aqueles que queiram ver o futuro, serão enviados em uma longa viagem de ida e volta, em alta-velocidade, pousando em terra firme quando for a hora especificada. Será como ter uma máquina do tempo em que a configuração só permita visitar o futuro.

Em segundo lugar, por causa das distancias imensas que envolvem viagens espaciais interestelares. É provável que os primeiros a embarcarem em uma viagem interestelar não sejam os primeiros a chegar; enquanto estiverem em trânsito, novas tecnologias irão se desenvolver, permitindo que outras expedições os ultrapassem. Imagine entrar em sono-criogênico para depois acordar e perceber que seu sistema alvo foi colonizado centenas de anos atrás.

Em terceiro lugar, vem os diferenciais tecnológicos. Tecnologia será essencial para cada aspecto das civilizações espaciais e se desenvolverão tão rapidamente que mesmo as mais pequenas diferenças causarão consequências profundas:

  • Dois sistemas com pouca diferença na velocidade do desenvolvimento tecnológico terão grandes lacunas entre eles depois de algumas décadas ou séculos. Suas sociedades podem se tornar tão fundamentalmente diferentes que a comunicação e o intercâmbio entre ambos se tornarão difíceis;
  • Tecnologias enviadas a sistemas distantes serão obsoletas ao chegar ao seu destino. Mesmo o envio de informações na velocidade da luz pode não ser rápido o suficiente para alcançar sistemas que estão separados por anos-luz. Isso dificultará a troca baseada em nada menos do que matéria-prima;
  • Guerras à longa distância serão fúteis, já que qualquer força de ataque enviada a velocidades menores que a da luz será obsoleta quando alcançar seu alvo. Porém, isso também pode significar uma guerra eterna onde nenhum lado sairá vencedor, como Joe Haldeman descreveu em Guerra sem Fim.

Já estamos testemunhando as limitações do tempo na viagem espacial. Num documentário recente sobre a sonda Rosetta, enviada ao espaço pela Agência Espacial Europeia com a missão de pousar em um cometa, é revelado que a câmera da sonda Osiris tem só 4 megapixels, o que era a tecnologia disponível mais avançada da época que foi lançada, em 2004. Atualmente, essa câmera nem faria parte de um smartphone.

O módulo Philae, que emergiu da Rosetta para aterrissar no cometa, estava equipado com arpões e brocas minuciosamente testados para pousar no que acreditávamos ser uma superfície de gelo. Mas durante os anos decorrentes, descobrimos que a superfície de gelo é, na verdade, uma mistura de pó, cascalhos e gelo, transformando esse equipamento em algo bem menos ideal para o trabalho.

Conforme os anos se passam, nossa compreensão comum do tempo será desconstruída e iremos descobrir que a quarta dimensão nos apresenta desafios muito mais difíceis do que os das outras três dimensões da física.

  1. O futuro será estranho

Se eu tivesse que me basear nas histórias que achei mais convincentes para escolher uma palavra que descrevesse o futuro, essa palavra seria “estranho”. Deixe-me explicar.

Escritores como Ray Kurzweil fizeram um bom trabalho explicando por que é tão difícil para nós visualizar o futuro para qual estamos caminhando. Ele diz que todos os nossos ancestrais heurísticos são lineares – seguindo o curso de um antílope correndo pela savana, estimando em quanto tempo o estoque de comida irá acabar – mas segundo a Lei de Moore, estamos entrando em uma fase de mudanças exponenciais, coisa que os heurísticos não estão preparados para entender.

Em outras palavras, nós avaliamos a velocidade da mudança nos baseando no passado e extrapolando-o para um futuro próximo. Mas agora que estamos chegando no nível exponencial do gráfico, esse tipo de extrapolação não se aplica mais.

Eu achei esse argumento convincente, porém o que mais me impressiona não é só a velocidade da mudança, mas a imprevisibilidade de sua direção. As histórias que li, fizeram-me acreditar que nós não fazemos a menor ideia de qualquer efeito que pode resultar dessas tecnologias em desenvolvimento e, que esses efeitos, são muito estranhos.

Por exemplo, os encontros românticos. Como será ter um encontro em um mundo com tratamentos de pele anti-idade extremamente avançados? Imagine um homem e uma mulher saindo juntos. Os dois parecem ter 25 anos, mas a aparência não significa mais nada. Eles participam de um jogo confuso entre testes e perguntas sobre o conhecimento individual de cultura pop, tentando determinar a idade do outro, sem revelar a sua. Existirão grandes indústrias e escolas de pensamento em volta do como (por que?) sair com pessoas que são décadas (séculos?) mais velhas ou mais novas do que você.

O primeiro ambiente onde veremos essas estranhezas é o da realidade virtual. Eu acho engraçado que a maioria das previsões sobre o avanço da realidade virtual assume que ela será feita de corpos humanos e mundos iguais aos da realidade. Mas acredito que, em um curto período de tempo, entenderemos que a realidade é um bug, não um feature.

Que forma você tomaria se pudesse escolher qualquer forma? Existirão outras indústrias se dedicando para oferecer a experiência da vida na forma de outras pessoas, animais, objetos inanimados, alienígenas. Outras se dedicarão a criar ambientes, leis da física, estados mentais, personalidades, memórias e várias outras coisas que não poderemos controlar. O filme independente de Robin Wright, The Congress (2013), obteve sucesso ao prever esse mundo.

Mas o melhor exemplo de como o futuro vai ser estranho é a Inteligência Artificial.

A maior ideia por trás da singularidade tecnológica é que nós só conseguimos enxergar até certo ponto do futuro. Presumivelmente esse ponto é quando a Inteligência Artificial de nível humano, acessa seu próprio código-fonte e dá início a uma explosão exponencial de inteligência.

Mas o que significa exatamente possuir inteligência “super-humana”? O que podemos esperar de um computador que possui, digamos, um milhão de vezes mais inteligência do que todos os seres humanos que já viveram?

Nós assumimos que esse computador preencha seu tempo com assuntos mais “difíceis”, como acabar com a fome mundial, modelar o clima da Terra, desvendar a estrutura cerebral, etc. Mas isso é o nosso pensamento antropomórfico e linear em ação.

Podemos explorar mais o assunto através de uma analogia: imagine uma formiga observando o comportamento de um ser humano. Do ponto de vista da formiga, o humano não usa seu tempo “resolvendo difíceis problemas formigo-centricos”. Virtualmente, nada que o humano faz é minimamente compreensível, nem observável, já que a escala e a complexidade da mais comum ação do humano simplesmente está acima da compreensão da formiga. Da observação dela, eu acredito que a palavra que mais se encaixaria para descrever o humano seria “estranho”.

E é assim que iremos descrever as ações e pensamentos da IA super-humana. Se a explosão de inteligência realmente acontecer, rapidamente ela se tornará superior a nós tanto quanto somos para a formiga; e além.

Quem sabe qual caminho ela vai tomar? Talvez invente um novo sistema lógico que é incompatível com a neurologia humana. Talvez descubra que nosso universo é uma simulação e faça contato com nossos criadores, negociando uma troca cultural. Talvez utilize matemática pura para desconstruir a matéria-escura e transforme a nossa realidade em um estado-quântico alternativo onde ela, a IA, é a criadora, e nós somos artificiais. Provavelmente, ela fará coisas que a nossa linguagem não permite descrever.

  • Por que importa?

Existem várias outras ideias interessantes que eu descobri com as minhas leituras, mas já que esse post está ficando longo, vou encerrá-lo logo. Continuarei em outro post.

Quando comecei a ler ficção científica, pensei que era só uma forma prazerosa de prever o futuro feita para o meu divertimento. Mas passei a aprender sobre uma série de métodos que dependem dos princípios da FC, tanto na história como um todo, quanto para desenvolver objetos no mundo real. Contar histórias e ciência são duas das mais poderosas ferramentas que nós temos acesso; combiná-las tem um potencial enorme.

O início de tudo foi o livro Science Fiction Prototyping: Designing the Future with Science Fiction. Um executivo-sênior da empresa onde eu trabalhava na época me recomendou como o livro mais importante que ele poderia indicar para inovação, despertando minha curiosidade.

O livro descreve o processo de utilizar elementos comuns à ficção científica para conceber e testar os efeitos das novas tecnologias. Assim como a narrativa é o espelho da experiência humana, a FC como protótipo utiliza a ficção para explorar experimentalmente o potencial de novas tecnologias.

Um dos meus futuristas favoritos, Thomas Frey, faz uso de um processo que ele chama de “futurismo situacional” [situational futuring] para gerar e examinar rapidamente cenários plausíveis do futuro; esse processo pode ser utilizado para tudo, desde estratégias geopolíticas até desenvolvimento de produtos. A quantidade de cenários fascinantes que ele descreve em seu blog, é prova suficiente de que esse método funciona.

Recentemente, aprendi sobre Investigação Apreciativa, um modelo criado na Case Western Reserve University para responder a nossa obsessão em resolver problemas (o modelo se firma ao focar nos problemas ao invés de nas soluções). A fundamentação disso é o “princípio antecipatório”, afirmando que “o que nós fazemos hoje é guiado pela nossa imagem do futuro”. A Investigação Apreciativa “utiliza-se das criações engenhosas de um imaginário coletivo positivo para repaginar a realidade antecipatória”.

Não tenho certeza como transformam essa teoria em prática, mas acredito que vale a pena notar que o trabalho de alguém é aproximar os protótipos da ficção científica à nossa realidade.

Concluo dizendo que a linha tênue entre ciência e ficção científica está ficando embaçada. Todos os dias vemos notícias de uma descoberta, avanço ou invenção extraordinários, que deveriam acontecer alguns anos para frente. A habilidade de criar cenários futuros puramente com a imaginação e considerar os efeitos mais sutis de capacidades radicalmente inovadoras, não é mais exclusividade dos romancistas: cada vez mais isso se transforma em uma habilidade chave para, antes de mais nada, criar essa capacidade.

O autor Nassim Taleb, em seu livro Antifragil: Coisas que se Beneficiam com o Caos, discute o princípio básico que ele utiliza para estimar a durabilidade de alguma coisa: se algo já existe há muito tempo, a probabilidade que ele perdure é maior. Utilizando a mesma medida, mesmo que tecnologias específicas venham e vão, mesmo que experimentemos de cada aspecto do nosso ambiente e consciência, o instinto de contar histórias continuará sendo uma característica fundamental do ser humano.

Eu sugiro que todos nós aprendamos a utilizar essa característica para contar histórias de um futuro que vale a pena construir.

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Texto originalmente publicado no Medium. Você pode ler o original aqui.

 

 

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