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CUIDADO!
HÁ SPOILERS NO MEIO DO CAMINHO!
NO MEIO DO CAMINHO HÁ SPOILERS!
Essa é uma matéria opinativa.

Durante toda a próspera vida dos filmes de ação hollywoodianos, nós, mulheres, tivemos o (des)prazer de sentar nas cadeiras das salas de cinema e presenciar horas e horas de personagens femininas utilitárias: mulher em filme de ação só serve para ser a namorada/objeto sexual de algum homem, ou ainda, uma vítima, uma pessoa que corre perigo e só pode ser salva pelo poderoso e musculoso sexo oposto. Além disso, as falas dessas personagens representam – no geral – algo por volta de 20% do roteiro e quase sempre são atreladas às falas de personagens masculinos. Por isso, quando “Mad Max: Fury Road” foi lançado, eu pensei: estamos em 2015 e ainda insistem em fazer esse tipo de filme? Li algumas notícias que começaram com o fuzuê do “primeiro filme de ação feminista saído do forno de grandes estúdios” e mesmo assim, não acreditei. Hollywood? Feminista? Me poupe. Um filme que rendeu U$45 milhões na noite de estreia se pautou nas discussões de gênero? É para rir?

Eu não poderia estar mais errada.

A franquia Fury Road pode ser resumida em tanques de guerra participando de uma corrida selvagem pelo deserto do mundo pós-apocalíptico de Mad Max. Mas é bem mais do que isso.tumblr_no92h8lHix1qh124lo1_500

Tudo começa na Cidadela governada autoritariamente por Immortan Joe, um déspota insano, que por ter encontrado água e desenvolvido um sistema de captação, consegue escravizar os seres humanos que precisam daquele bem natural (o que, basicamente, significa: todos). Dentro de seu império, as figuras mais importantes são seus dois filhos e a Imperatriz Furiosa (uma guerreira amazona interpretada por Charlize Theron).

(Vale a pena abrir um parênteses aqui, para frisar o nome Furiosa. Nas franquias anteriores de Mad Max, as coadjuvantes se chamavam: Enfermeira, Garota do Nightrider, Garota do Capitão e Vítima. Aqui, estamos lidando com F-U-R-I-O-S-A. Não é à toa que o filme se chama, numa tradução literal, “Estrada da Fúria”).

A Imperatriz Furiosa tem deficiências físicas (perdeu uma parte de seu braço) e ocasionalmente o substitui por um membro mecânico. Isso não a impede de também se sentir confortável e dar surra em qualquer um quando o braço mecânico não está preso ao seu corpo. Apesar dos cabelos raspados, não vá achando que a personagem feminina com maior representação de força foi masculinizada (até porque dividir aparências entre algo masculino ou feminino não dá mais, né gente?). Como na vida real, o filme mostra vários tipos de beleza e poder feminino, de diferentes idades e etnias.

Os dois filhos de Joe também apresentam deficiências e ele está em busca de um terceiro filho, um homem perfeito, para substituí-lo. Aí, entra o “x” da questão: existem cinco mulheres, conhecidas coletivamente como Esposas, que são obrigadas pelo ditador a procriar e parir, quando ele quiser. A partir desse problema, Furiosa assume seu papel subversivo e se propõe a levar as Esposas para um lugar utópico, o Green Place, uma sociedade exclusivamente feminina, onde ainda há esperança. Quando ela recebe a licença para pilotar a máquina de guerra, esconde essas cinco mulheres no carro e começa a fuga pelo deserto.

Já disse que não só as mulheres, mas todas as pessoas que viviam na Cidadela, eram tratadas como escravos ou commodities. Todos vivem em uma representação do patriarcado levado ao extremo, como um culto mortal. Os gêneros são escravizados pelos seus estereótipos mais fortes: mulheres são meros estoques alimentícios e os homens servem para travar guerras violentas, sem utilizar nenhum filtro de raciocínio lógico ou humano.

Para entendermos melhor a relação dos escravos com o sistema, vou descrever as principais funções desta “casta” da Cidadela:

  • Mulheres Leiteiras

Suas funções são meio que óbvias. Como o mundo virou um grande deserto sem vida, não existe vegetação. Sem vegetação, não existe pasto. Sem pasto, sem vacas. Sem vacas, sem leite. Pelo menos sem leite animal. O leite materno acaba virando um nutriente raríssimo e de extrema preciosidade, roubado das mulheres única e exclusivamente para nutrir a elite da Cidadela.

  • Esposas

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Nesta realidade alternativa, quase todas as pessoas possuem algum tipo de deficiência ou limitação física, dos escravos até a elite. O próprio líder, Immortan Joe, é um idoso com sérios problemas respiratórios e várias bolhas de queimadura na pele, que precisa utilizar um aparelho para respirar e placas de plástico que protegem seu corpo. Ele precisa de soldados saudáveis para lutar em seu nome na guerra por combustível, comida e sobrevivência. Então, qualquer mulher que não tenha nenhum tipo de deficiência física se torna uma escrava reprodutora. O detalhe é que em momento algum, imagens de violência sexual são mostradas. Além de respeito pela imagem da mulher, significa que Max não precisa ver para crer. Individualmente, as Esposas recebem nomes auto descritivos: Anghard, a Esplêndida; Dag (que em inglês serve como adjetivo para pessoas que não estão sempre arrumadas, cheirosas e maravilhosas, mas sem o caráter conotativo); Cheedo, a frágil (que de frágil não tem nada e não tem problema nenhum em se arriscar pelo bem de suas amigas); Toast, a sábia e Capable (Capaz, em inglês).

  • War Boys

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Apesar de se mostrarem desregradamente violentos, os “meninos de guerra” também aparecem como figuras oprimidas. Immortan Joe garante que os guerreiros que morrerem em batalha, alcançarão os portões de Valhala (um tipo de paraíso da mitologia Nórdica). Os War Boys foram envenenados pelas palavras e oferecem seus corpos como sacrifício de guerra sem pensar duas vezes. Seus lemas principais são “Testemunhem!” e “Os portões de Valhala se abrirão para mim”. Eles representam uma alusão aos jovens patriotas que se voluntariaram para o alistamento do exército depois do 11 de setembro. Durante o filme, um desses garotos, Nox, se liberta do patriarcado e passa a ajudar Furiosa e as Esposas.

  • Capturados de Guerra

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Todos que não conseguem escapar da violência dos War Boys são levados à força para a Cidadela e obrigados a exercer uma função. Mad Max (interpretado por Tom Hardy) é um deles. Depois de capturado, é trancafiado em uma jaula e também passa a ser tratado como um utilitário: por ser um doador universal, sua função é fornecer sangue para os guerreiros abatidos. Sua coisificação é intensificada quando os War Boys o chamam de “bolsa de sangue”.

Acho que já deu para perceber que o lema do Mad Max: Fury Road é: esqueça o sexismo recreativo! Mas todo esse mérito não cabe só ao diretor George Miller. Existem duas mulheres que foram essenciais para o resultado final da produção: Eve Ensler e Margaret Sixel deram a representatividade feminina que a produção precisava.

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Ensler é a autora de “Os Monólogos da Vagina”, uma peça de teatro feminista e progressista dos anos 1990. Atualmente, ela comanda o projeto “V Day” que tem como principal função alertar o mundo e mulheres contra violências ao seu corpo e opressões. Uma das partes vitais desse projeto é atuar em zonas de guerra como Bósnia, Haiti, Afeganistão e Congo. Essa experiência a inspirou para escrever uma nova peça, chamada “Avocado”, onde uma mulher é traficada dentro de uma caixa de abacates, passando por situações cada vez mais opressoras. A autora ficou responsável pela supervisão do roteiro de Mad Max: Fury Road e por guiar o comportamento, principalmente, das cinco Esposas. Ela costumava frequentar o set de filmagem e dar palestras sobre violência contra a mulher para o elenco.

"Nós não somos coisas"

“Nós não somos coisas”

Margaret Sixel foi a responsável pela edição do longa, que teve por volta de 480 horas de gravação. Ela nunca tinha editado nenhum filme de ação antes e esse parece ter sido um trabalho muito exaustivo. A cena que mais gostei e que reúne grande parte dos conceitos do filme possui por volta de 200 tomadas – e o resultado final tem menos de 2 minutos.

Estou falando da cena em que Furiosa, as Esposas e Mad Max se conhecem. Em dois minutos eles se enganam, lutam entre si (cada personagem entra nessa briga com suas fraquezas expostas) até que entendem o quanto os dois lados precisam caminhar juntos. Ou correr em alta velocidade pelo deserto, fugindo dos War Boys enquanto explodem tudo o que conseguem.

É nessa parte que vemos a diferença de Fury Road para outros filmes de ação. É aqui que as Esposas tiram suas cintas de castidade e provam que não estão ali só como um peso a ser carregado; mas também podem entrar em ação. Quando Max encontra essas mulheres, elas estão se refrescando com uma mangueira de água e essa é possivelmente a parte mais sensual do filme. Mas o desejo que se forma não é pelas mulheres e sim pela água. Até a maneira como a cena foi montada não permite a objetificação do corpo feminino. Os closes são para revelar características dessas personagens e logo após de apresentar todas (inclusive o rosto de cada uma e não só as partes que agradam aos homens), um vento bem forte assopra suas roupas. Antes que alguma área fique super exposta, um raio solar bloqueia a visão do expectador e um corte é feito para dentro da máquina de guerra, onde Anghard, a Esplêndida conversa com Furiosa.

Como elas ainda encaram qualquer homem como uma ameaça em potencial, Furiosa acredita que não conseguirão fugir se Max estiver com elas. Afinal de contas quando o mundo estiver perto de seu fim, não precisaremos da proteção dos homens e sim nos proteger deles.

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Quando a briga entre os dois começa, Charlize Theron vence o protagonista e os dois acabam percebendo que precisam do outro para vencer o deserto e Immortan Joe (que está logo atrás deles, morrendo de vontade de acabar com toda essa palhaçada de girl power. E, mesmo assim, Furiosa é tratada como “traidora” e não “vadia”).

Primeiro, os indivíduos encontraram o equilíbrio entre os gêneros, para só depois lutar contra a representação do patriarcado. Sabe por que os fatos aconteceram nessa ordem? Porque a única maneira de derrotar um regime opressor é não ter uma resistência opressora.tumblr_nnztjjtneC1tslewgo4_r1_500

Immortan Joe é uma das melhores representações cinematográficas do que o machismo pode significar: um narcisista monstruoso, de excessos mesquinhos, envenenando as pessoas com uma imagem de imortalidade que não existe, cada vez mais atrofiado em seu próprio corpo, sobrevivendo por meio de uma tecnologia cada vez mais decadente. Existe aqui também uma associação Freudiana com os dentes e o poder. O déspota utiliza uma máscara com dentes de cavalo e só perde sua vida quando ela é arrancada de seu rosto; e os War Boys passam spray cromático em seus dentes antes de enfrentar uma ação perigosa, transferindo a resistência dos metais para seus organismos de uma maneira bastante enganosa.

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Depois de causar muitos danos para Immortan Joe e seus War Boys, Furiosa chega ao Green Place e descobre que o lugar não é mais como antes: não existe mais um porto seguro exclusivo das mulheres. E então a solução vem por uma ideia de Max: e se eles se unissem outra vez, voltassem para a Cidadela (que afinal de contas tem água, alimentação e pessoas que ainda sofrem com o sistema antigo) e destruíssem o reinado monstruoso deixado por Joe?

Afinal de contas, o feminismo é sobre compreensão, amor e igualdade. Quer igualdade melhor do que homens e mulheres conquistarem a vitória ou morrerem juntos?

COMENTÁRIOS DA EQUIPE DE MAD MAX: FURY ROAD SOBRE O FILME:

“Se você assistir esse filme sob uma ótica objetiva, verá que as mulheres são igualmente capazes de lutar. Mulheres tem os mesmos desejos. Mulheres são independetes e sabem ministrar suas próprias vidas. Elas existem sem os homens.”

Eve Ensler para BBC

“Eu já fui um super macho-alfa e aos poucos fui me cercando de mulheres magníficas. Não pude evitar: virei um feminista”

George Miller para Vanity Fair

“As pessoa se assustam um pouco quando usamos a palavra feminismo. É como se estivessem nos colocando num pedestal. George compreende naturalmente que mulheres são tão complexas e interessantes quanto homens. Só pela sua necessidade e busca pela verdade ele conseguiu dirigir um filme feminista incrível”

Charlize Theron

Sobre Isabella Furtado

Formada em Produção Editorial e grafiteira das paredes de seu próprio quarto nas horas vagas. Descobriu a ficção científica quando tinha 12 anos e desde então, não conseguiu mais largar.

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